Entrámos apreensivos. Ansiosos, medrosos. Fomos avisados daquilo que iríamos encontrar.
Ingressámos numa viagem por um mundo paralelo, curiosos... Agarrávamos as mãos uns dos outros com muito receio e ansiedade.
Descemos as escadas sempre à espera de algo que despertasse em nós o sentimento nunca antes despertado.
Batemos à porta e ali estava o primeiro...
Daniel.
Pequeno, indefeso, Lindo. O toque foi difícil e apenas passei o olhar por ele.
Outra sala, e mais. Lindos, sorridentes, atentos às movimentações. É difícil encará-los de frente.
À saída, lá estava o Daniel: pequeno, indefeso, Lindo.
Desta vez enchi-me de coragem e passei-lhe a mão pela cara... igual a tantos outros meninos. Sorriu. Simplesmente. E ficou guardado no coração.
Subimos e encontrámos mais. Cativou-me o Flávio. Pequeno, indefeso e Lindo.
Desta vez o toque foi mais fácil, o olhar foi mais fácil... suave, sorridente. Toquei-lhe na mão e ele ainda foi mais longe, muito mais longe: tocou-me no coração.
A visita era rápida, tentei levar o melhor de cada um.
A última "casa"... encontrámos mais... a Mafalda e o Alexandre...
Oh! A senhora Carmina (se a memória não me falha), há 14 anos ali, Linda, a mais velha mas a mais jovem. Quis saber o nome de todos... "Ana", disse-lhe eu a medo, alguém completou: "Estrelinha"... "Ana Estrelinha" - disse ela, já a apontar para o próximo que se lhe aproximava.
Mas fiquei presa na Mafalda. Pequena, indefesa, Linda.
E aquele sorriso... aquelas gargalhadas! Olhá-la nos olhos. Tocar-lhe na perna, na mão e na face... Não queria deixá-la.
O Alexandre, ao lado. Tao pequeno, indefeso, Lindo.
Fui direita a ele e passei-lhe a mão na cara. É tão tímido! Fiquei a saber que tem 2 namoradas e faz sucesso entre as meninas! E não era por acaso que estavam logo 4 à volta dele. Mas de repente ouvi alguém "gritar". Voltei-me e vi que era a Mafalda. Pequena, indefesa, Linda.
Sem saber o que dizer, fui ter com ela. Agarrar-lhe na mão, pensei eu, é pouco, talvez ela precise de palavras. Mas percebi rapidamente que aquilo que ela queria era apenas atenção. Alguém que olhasse para ela, profundamente.
Aqueles olhos, que não paravam devolviam o afecto, o carinho que eu lhe queria dar.
Então... "Temos que ir embora!"
Apetecia-me abraçar a Mafalda, dar-lhe um beijo. E agradecer-lhe por me ter ensinado tanto em tão pouco tempo. A vontade de ficar ali sentada ao pé dela era demasiada. Saber da história dela e partilhar a minha com ela. Olhar aquele sorriso inocente, doce, suave. Senti-la a fugir dos meus dedos, com cócegas no pescoço! E poder proporcionar algo diferente daquilo a que ela está habituada.
Ap despedir-me, agarrei-lhe na cabeça pequenina e dei-lhe um beijo. Olhei para o Alexandre e sorri!
Virei-me e dirigi-me para a porta. Chorava. A imagem da Mafalda não me saía da cabeça.
Todo o receio tinha ido embora.
Os olhos deles marcaram-me. Encheram-me. Atingiram-me.
Ao tocar-lhes, cada vez ia percebendo mais que eles são iguais. Totalmente iguais a nós. A pele, a cara, os olhos. Não havia distância entre nós, naquele momento.
Saí do centro com o coração nas mãos. E cada vez que me lembrava...
No início... era a nossa visita aos Doentes Profundos...
Levávamos amor, sorrisos, carinhos, beijinhos. Fomos, sem o compromisso de trazer algo deles.
No fim, trouxémos olhares, toques, um lição de vida: Muito mais do que lá fomos deixar.
Obrigada.
By: Angel of Death (26-1-2008)
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