sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Lindos

Entrámos apreensivos. Ansiosos, medrosos. Fomos avisados daquilo que iríamos encontrar.
Ingressámos numa viagem por um mundo paralelo, curiosos... Agarrávamos as mãos uns dos outros com muito receio e ansiedade.
Descemos as escadas sempre à espera de algo que despertasse em nós o sentimento nunca antes despertado.
Batemos à porta e ali estava o primeiro...
Daniel.
Pequeno, indefeso, Lindo. O toque foi difícil e apenas passei o olhar por ele.
Outra sala, e mais. Lindos, sorridentes, atentos às movimentações. É difícil encará-los de frente.
À saída, lá estava o Daniel: pequeno, indefeso, Lindo.
Desta vez enchi-me de coragem e passei-lhe a mão pela cara... igual a tantos outros meninos. Sorriu. Simplesmente. E ficou guardado no coração.
Subimos e encontrámos mais. Cativou-me o Flávio. Pequeno, indefeso e Lindo.
Desta vez o toque foi mais fácil, o olhar foi mais fácil... suave, sorridente. Toquei-lhe na mão e ele ainda foi mais longe, muito mais longe: tocou-me no coração.
A visita era rápida, tentei levar o melhor de cada um.
A última "casa"... encontrámos mais... a Mafalda e o Alexandre...
Oh! A senhora Carmina (se a memória não me falha), há 14 anos ali, Linda, a mais velha mas a mais jovem. Quis saber o nome de todos... "Ana", disse-lhe eu a medo, alguém completou: "Estrelinha"... "Ana Estrelinha" - disse ela, já a apontar para o próximo que se lhe aproximava.
Mas fiquei presa na Mafalda. Pequena, indefesa, Linda.
E aquele sorriso... aquelas gargalhadas! Olhá-la nos olhos. Tocar-lhe na perna, na mão e na face... Não queria deixá-la.
O Alexandre, ao lado. Tao pequeno, indefeso, Lindo.
Fui direita a ele e passei-lhe a mão na cara. É tão tímido! Fiquei a saber que tem 2 namoradas e faz sucesso entre as meninas! E não era por acaso que estavam logo 4 à volta dele. Mas de repente ouvi alguém "gritar". Voltei-me e vi que era a Mafalda. Pequena, indefesa, Linda.
Sem saber o que dizer, fui ter com ela. Agarrar-lhe na mão, pensei eu, é pouco, talvez ela precise de palavras. Mas percebi rapidamente que aquilo que ela queria era apenas atenção. Alguém que olhasse para ela, profundamente.
Aqueles olhos, que não paravam devolviam o afecto, o carinho que eu lhe queria dar.
Então... "Temos que ir embora!"
Apetecia-me abraçar a Mafalda, dar-lhe um beijo. E agradecer-lhe por me ter ensinado tanto em tão pouco tempo. A vontade de ficar ali sentada ao pé dela era demasiada. Saber da história dela e partilhar a minha com ela. Olhar aquele sorriso inocente, doce, suave. Senti-la a fugir dos meus dedos, com cócegas no pescoço! E poder proporcionar algo diferente daquilo a que ela está habituada.
Ap despedir-me, agarrei-lhe na cabeça pequenina e dei-lhe um beijo. Olhei para o Alexandre e sorri!
Virei-me e dirigi-me para a porta. Chorava. A imagem da Mafalda não me saía da cabeça.
Todo o receio tinha ido embora.
Os olhos deles marcaram-me. Encheram-me. Atingiram-me.
Ao tocar-lhes, cada vez ia percebendo mais que eles são iguais. Totalmente iguais a nós. A pele, a cara, os olhos. Não havia distância entre nós, naquele momento.
Saí do centro com o coração nas mãos. E cada vez que me lembrava...
No início... era a nossa visita aos Doentes Profundos...
Levávamos amor, sorrisos, carinhos, beijinhos. Fomos, sem o compromisso de trazer algo deles.
No fim, trouxémos olhares, toques, um lição de vida: Muito mais do que lá fomos deixar.

Obrigada.


By: Angel of Death (26-1-2008)

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